28
Jun
10

Deus choraria, se dançasse.

É engraçado discutir coisas aparentemente pequenas e óbvias, como naquele filme do Tarantino, Cães de Aluguel — e eu e meus amigos nos pegamos falando de algum assunto deste tipo.  Certo dia, enquanto discutíamos uma cena de teatro que estavamos tentando produzir, chegamos à breve conclusão (que Caio, o colérico, não gostou tanto) de que tristeza não é o inverso de felicidade, mas de alegria; e que, portanto, poder-se-ia sentir a satisfação da felicidade sem que esteja alegre, ou mesmo triste. Lembro-me vagamente deste episódio, mas sei que sempre dou um exemplo que me parece muito claro, num momento desses: — Sabem aquele trecho de Hey Jude, dos Beatles? “Take a sad song and make it better!”; então! É isso. Temos músicas tristes pra momentos tristes, que não necessariamente nos torna ou nos faz sentir mais tristes — e com as músicas alegres, o caso é muito parecido.

Ouçamos, pra exemplificar, um som muito cruelmente triste e outro muito cruelmente alegre — respectivamente: Velvet underground e The Specials.

velvet underground – venus in furs

The SpecialsToo Much Too Young (Live)

Pra ficar mais interessante a experiência, tentemos lembrar de coisas que nos deixem triste, antes de Velvet Underground e, dado um tempo pra limpar os ouvidos (assim como se limpa a boca para uma degustação), ouça Specials junto a alguma memória alegre. O mais interessante é que você pode se sentir bem na primeira situação e relativamente mal na segunda; ou vice versa. Isto acontece porque as sensações de melancolia, tristeza, agonia e dor têm uma similaridade muito grande com, respectivamente: animação, alegria, euforia e prazer. Parecem todos esses pares agir dialeticamente como uma única ferramenta que pode ter, ela mesma, funções depressivas e animadoras. A divisão maniqueísta entre dor e prazer não parece atravessar a moralidade dos grandes artistas, que conseguem misturar as sensações como se Deus dançasse pela manhãnzinha e à noite agitada –mas chorasse, quando é tarde.

26
Jun
10

Como se compor uma boa canção

Para se ter uma boa relação de criação com a música, é necessário ter um ouvido maior que a boca — mas isso não significa ter um ouvido mais aberto que a boca.  No momento em que um espectador passa a encarar os sons de maneira mais precisa e rica, está apto a concorrer um dos tantos tronos da música reinante. Isto não explica, no entanto, o porquê de alguém ter uma exigência maior pra ouvir do que pra dizer; nem tampouco dizer que da exigência auditiva se conclui que é menor a exigência da sua expressão; ou ainda que é dos ouvidos ranzinzas o domínio da arte dos sons. É um vínculo criador/criatura muito presente e razoavelmente bem aceito na comunidade, nas outras profissões em geral — não causa problemas dizer que um alfaiate percebe tecidos, cortes e formas de vestimentas de maneira distinta que o resto das pessoas — mas, no meio musical e artístico em geral, como o produto é da esfera do simbólico, estima-se mais as explicações mentirosas  que muitas vezes são defendidas pelos próprios artistas: a inspiração. Com esta manutenção artista/público de uma idéia precária de “gênio” (leia-se: iluminado), não só se desperdiça um maior entendimento dos processos mentais — como memórias, sonhos, percepção, abstração, etc — que, segundo qualquer análise mais atenta, permeiam a faculdade criadora artística, mas também conspira contra a idéia de vontade própria ou autonomia. A contradição que há em se conceber isto desta forma — por mais que convicto de sua maior honestidade e clareza de inspeção — está em constatar que o aparato receptor é mais importante por princípio que o expositor, mesmo para os mestres da exposição. Os discos ouvidos pelos grandes compositores não são vistos — enquanto deveriam ser, ao menos para os demais artistas! — com maior valor de relíquia que os seus instrumentos musicais, postumamente.  Saber o que ouvia o gênio confere mais verdades àqueles que veneram e pesquisam sua técnica, do que conhecer que instrumentos ele utilizava.

Neste sentido, por exemplo, ao querer ser tão bom quanto Tim Maia, não perca tempo investigando suas cordas vocais — simplesmente escute: Otis Redding.

Otis Redding- (Sittin’ On) The Dock Of The Bay

Otis ReddingTry A Little Tenderness(Live)

Otis Redding

21
Jun
10

Buzzcocks – Quando o punk inglês enterneceu sem perder a dureza

Então, resolvi fazer um blog sobre música e pretendo postar aqui tudo que eu achar conveniente sobre o tema — análise de bandas, músicas, álbuns, videoclipes ou o que vier na telha. Minha intenção — advirto logo! — não é apresentar as bandas, músicas etc, mas sim compartilhar sensações e correlações que eu eventualmente faça por aqui –  muito embora eu sempre que possível esteja postando um link do conteúdo analisado.

Pra iniciar: Buzzcocks! Sim, ê sonzão que me impressiona! Aconselho para primeira audição o  “Singles going steady” que, por ser uma coletânea muito boa de singles da banda, dá pra dar uma visão geral bacana.

(clique na imagem pra baixar)

Uma das coisas que acho incrível na banda é que ela impressiona tanto um público mais atual, amantes de bandas como Strokes e Artic Monkeys, como àqueles que dispensam essas modernidades e preferem recorrer ao punk rock clássico, seco e cru.

Aos primeiros isto deve ser uma surpresa — haja vista que “punk rock” não é o estilo mais ouvido atualmente — mas, uma resposta muito clara em minha mente é que muito do que Buzzcocks faz em sua música adianta a transição de sonoridade que só haverá no final dos anos 80 e início dos 90 dos EUA, que vai gerar o que chamam post punk e indie (bandas como Pixies, Sonic Youth e Pavement), até chegar a esse indie atual. Não estou me importando com os estilos em que essas bandas foram enquadradas, mas ligando as caracteristicas: é só ouvir riffs de guitarra de músicas como “Ever Fallen in Love” e “Everybody’s Happy Nowadays” que fica fácil entender esta relação. O que me intriga é que as letras da banda também se destacam de sua época e parecem trazer uma diversidade de sentimentos maior do que a temática mais comum nas outras bandas punk da época. As melodias, na voz e nos instrumentos, parecem ganhar a ternura que tanto acompanha suas letras, sem perder a usual dureza punk; afinal de contas, existe mais coisas pra sentir (e inclusive com o que se revoltar) do que o brasão de alguma corrente ideológica feita pra arrebanhar os incorfomados menos críticos e autônomos.




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