É engraçado discutir coisas aparentemente pequenas e óbvias, como naquele filme do Tarantino, Cães de Aluguel — e eu e meus amigos nos pegamos falando de algum assunto deste tipo. Certo dia, enquanto discutíamos uma cena de teatro que estavamos tentando produzir, chegamos à breve conclusão (que Caio, o colérico, não gostou tanto) de que tristeza não é o inverso de felicidade, mas de alegria; e que, portanto, poder-se-ia sentir a satisfação da felicidade sem que esteja alegre, ou mesmo triste. Lembro-me vagamente deste episódio, mas sei que sempre dou um exemplo que me parece muito claro, num momento desses: — Sabem aquele trecho de Hey Jude, dos Beatles? “Take a sad song and make it better!”; então! É isso. Temos músicas tristes pra momentos tristes, que não necessariamente nos torna ou nos faz sentir mais tristes — e com as músicas alegres, o caso é muito parecido.
Ouçamos, pra exemplificar, um som muito cruelmente triste e outro muito cruelmente alegre — respectivamente: Velvet underground e The Specials.
velvet underground – venus in furs
The Specials – Too Much Too Young (Live)
Pra ficar mais interessante a experiência, tentemos lembrar de coisas que nos deixem triste, antes de Velvet Underground e, dado um tempo pra limpar os ouvidos (assim como se limpa a boca para uma degustação), ouça Specials junto a alguma memória alegre. O mais interessante é que você pode se sentir bem na primeira situação e relativamente mal na segunda; ou vice versa. Isto acontece porque as sensações de melancolia, tristeza, agonia e dor têm uma similaridade muito grande com, respectivamente: animação, alegria, euforia e prazer. Parecem todos esses pares agir dialeticamente como uma única ferramenta que pode ter, ela mesma, funções depressivas e animadoras. A divisão maniqueísta entre dor e prazer não parece atravessar a moralidade dos grandes artistas, que conseguem misturar as sensações como se Deus dançasse pela manhãnzinha e à noite agitada –mas chorasse, quando é tarde.

